Grávida na Alemanha – Estar grávida é realmente uma viagem

A decisão de ter um filho é algo que envolve muito planejamento, organização e é claro emoções. Depois de quatro anos de casada e morando na Alemanha resolvi que era hora de encarar esta viagem de emoções e desafios de ficar grávida na Alemanha.

Fazendo o roteiro – Pensando em engravidar

Eu sempre gostei de planejar a minha vida, ou pelo menos ter ideia de quando eu gostaria de fazer certas coisas. Talvez porque eu gosto de sempre ter, ou achar que tenho, o controle das coisas. Eu e meu marido sempre falamos em ter filhos com muita naturalidade, talvez porque era algo distante dos nossos planos. Depois de 4 anos de casados o assunto começou a ficar mais sério. Começamos a realmente nos planejar e organizar.

Começamos a pesquisar quanto a mais de grana iriamos gastar, coisas que iriamos precisar, qual carrinho de bebê a gente gostaria de ter e pasmem, chegamos a comprar uma caminha de bebê dessas que vai do lado da cama porque estava em uma super promoção sendo que eu nem grávida estava! No final eu acho que essa pesquisa foi ótima porque nos deu uma noção BEM BÁSICA de tudo. Eu sempre me interessei pelo assunto maternidade, então sempre li sobre parto, criação, como é viajar com um bebê e por ai vai.

Check-up com a ginecologista

Uma das vezes que fui na ginecologista para uma consulta de controle ela me perguntou se tínhamos o desejo de ser pais em algum momento. Eu respondi que sim, então ela pediu que na próxima consulta eu levasse a minha carteira de vacinação para que ela verificasse se eu já tinha tomado todas as doses que são importantes para uma gestante.

Meu marido me ajudou a traduzir e organizar as informações porque eu tinha várias carteiras e assim ficaria mais fácil para a médica entender aquela bagunça.

Conforme o combinado, na próxima consulta levei a tabela com as traduções e ela viu que faltavam algumas vacinas que eram importantes para a gestação e recomendou começar a tomar ácido fólico uma vez ao dia 6 semanas antes de quando eu decidisse parar de tomar pílula. Marquei uma consulta no meu médico da família e tomei as doses das vacinas que faltavam.

Comprando as passagens – Decidindo engravidar

Decidir engravidar foi um processo que para mim durou uns dois anos. Tive vários medos que fui desconstruindo e trabalhando na terapia. Medo do meu corpo mudar, de não gostar de estar grávida, medo de não ter mais tempo para mim, de não ter mais tempo e grana pra viajar, medo do parto, medo de não dar conta, da responsabilidade e por ai vai. Um ano antes dessa decisão o meu marido jogou em uma conversa que estávamos tendo na cozinha enquanto cozinhávamos juntos: “Ano que vem vamos engravidar né?”. Eu tive um ataque de riso, abri a janela para recuperar o ar e perguntei se era isso mesmo que ele queria. A resposta foi que sim, ele já tinha resolvido isso, agora só bastava eu decidir quando.

Ajustes no roteiro – lidando com imprevistos

Depois disso veio a pandemia, que fez com que não só eu, mas todo mundo, desse pausa em todos os planos. Isso me deixou mega ansiosa porque a gente não sabe até hoje quando isso realmente vai acabar e se um dia vai acabar.

Sempre conversei muito com o meu marido sobre todas as minhas inseguranças, afinal, vou ter um bebê em outro país, então preciso me informar 10x mais, além de todo vocabulário novo que vou ter que aprender em alemão.

Depois de tanto tempo falando em ter filhos resolvemos que eu iria acabar com a próxima cartela de pílula e depois eu não iria mais comprar. Acabou que eu falei quer saber? A pandemia está melhorando, então eu não vou nem começar a última! Vou parar agora! Isso foi fácil. Difícil mesmo foi quando tentamos engravidar pela primeira vez. Foi uma mistura de sentimentos, minha cabeça estava a mil! Eu pensava: e se deu certo mesmo? Por favor que ainda não tenha dado certo. Eu acho que ainda não deu certo. Imagina que legal se deu certo de primeira?

Tripulação, preparar para decolagem – Descobrindo a gravidez

Fiz o primeiro teste de gravidez e para a minha alegria ou não ele deu negativo. Confesso que senti um certo alívio de ter dado negativo, afinal, tenho medo do novo. Na segunda tentativa eu já estava mais animada e com menos medo, mas ainda não estava 100% segura de que era a hora certa. E a real é que nunca tem hora certa pra nada! Fiz o teste novamente e nada. Na terceira eu já estava querendo muito que desse positivo, mas para a minha decepção deu negativo. Dessa vez fiquei muito triste, cheguei a chorar, mas não desisti. A quarta tentativa foi durante as férias e foi quando eu consegui desconectar o fato que fazer amor poderia gerar um bebê. Eu me entreguei totalmente ao momento.

Os primeiros sinais da gravidez

Hora de fazer o quarto teste, dessa vez tinha certeza que estava grávida. A menstruação atrasou mais do que uma semana, meus seios estavam mega doloridos, estava fazendo xixi a cada 20 minutos e estava com uma fome de leão. Cheguei em casa do trabalho, fiz o teste e deu positivo! Que alegria, que frio na barriga, que emoção! Tem um ser crescendo dentro de mim!! Confiro o teste 20x, olho a bula e é isso mesmo! Como sou a louca do planejamento a surpresa para o meu marido já estava quase pronta. Só acabei de escrever a cartinha e colei o teste de gravidez. Só consegui contar no dia seguinte e foi emocionante. Minha vontade era de sair gritando e contando para todo mundo a novidade, mas antes a gente queria ir na médica para ver ser estava tudo bem.

Compartilhando a viagem – Vemos o mundo com outros olhos

Depois que soubermos que estava tudo bem com o bebê resolvemos esperar os três primeiros meses para contar para a família. Compartilhar essa notícia foi uma das coisas mais legais da gravidez.

Depois que você se descobre grávida você passa a ver o mundo de outra forma. Como os casos do Covid na Alemanha estavam voltando ficar altos a minha preocupação e determinação em não me infectar com o vírus estavam mil vezes maiores. No Brasil a vida estava quase voltando ao normal. Como nós já tínhamos comprado as passagens para ir para o Brasil ver a minha família que eu não via há 3 anos fizemos todo um esquema de segurança para tentar voar da maneira mais segura possível.

Viajando grávida para o Brasil

Quando eu cheguei ao Brasil eu estava com quase três meses de gestação, então eu quase não tinha barriga. Foi difícil guardar esse segredo da minha família e amigos por tanto tempo, mas a vontade de contar pessoalmente era maior do que tudo. Como uma boa virginiana eu já tinha tudo preparado. Fiz bolinhas de árvore de natal com a foto do primeiro ultrassom de um lado e um texto anunciando a chegada do bebê do outro. A melhor parte era ver a reação de cada um. Valeu a pena esperar tanto tempo para compartilhar a notícia.

Para nós foi bem difícil entender, aceitar e acreditar que no Brasil a pandemia estava mais controlada. É difícil explicar, mas quando você carrega uma vida dentro de você é instintivo você querer protege-la de tudo. Eu tenho certeza que se eu não tivesse grávida e tivesse ido ao Brasil eu estaria relaxada. Não que a minha vida não tenha valor, mas agora eu sou responsável por um ser que não tem como se proteger. Eu sou o escudo, eu sou a fonte, o alimento, tudo só depende de mim, dos meus cuidados, então para muitas pessoas eu parecia a pessoa mais noiada do mundo e que todos os meus cuidados e pensamentos eram over, afinal, todo mundo só queria voltar a viver sem medo do vírus. Lembrando que em dezembro de 2021 foi um dos picos mais altos da pandemia na Alemanha.

Medos na Gravidez

Eu não sei se são os hormônios da gravidez, mas durante toda a gestação o botão do “foda-se” estava ligado 24 horas. Então se você me questionasse ou me criticasse por estar me cuidando tanto mesmo com os números baixos no Brasil, a minha resposta era sempre a mesma: “Sim, muitas grávidas pegaram Covid e ficaram bem, muitos bebês pegaram Covid e ficaram bem, mas eu não quero pagar para ver. A vida é feita de escolhas. Eu escolhi que farei tudo possível para não pegar o vírus.”

Então fica aqui a minha dica para a vida: respeite a visão e as decisões do coleguinha. É difícil morar do outro lado do mundo. Ninguém imagina metade dos medos e “noias” que a gente passa. Agora tem a guerra na Ucrânia. Quem tá no Brasil não sente 5% do medo que a gente sente morando perto de tudo isso. Agora junta pandemia, guerra, gravidez e você espera o que? Fico pensando em quem ficou grávida no começo da pandemia, que ainda não tinha vacina, só lockdown. Meu respeito e admiração por vocês triplicaram.

Aproveitando os últimos dias da viagem

Cheguei nas 31 semanas e senti um frio na barriga. A data da chegada está cada dia mais próxima. Começo a conferir o check list para ver se já fiz tudo o que tinha que fazer antes do dia tão esperada. Alemanha é conhecida por sua burocracia, então é realmente importante a gente ter pelo menos todos os papeis preparados.

Qual dia nasce? Ainda não sabemos, quem decide é o bebê. Até lá recebemos mensagens diárias perguntando se ela já resolveu nascer. Vamos lembrar que a data que o médico fala é a data prevista e somente 4% dos bebês realmente nascem nesse exato dia.

Minha ansiedade ainda está baixa. Meu foco ainda está em aproveitar os últimos dias de férias e depois os da licença maternidade que para quem está grávida na Alemanha começa 6 semanas antes da data prevista. Aproveitei esse tempo para fazer limpas: Da casa, das gavetas, dos armários e das fotos. Ai essas fotos do celular que a gente tira milhões iguais e não deleta nenhuma. Eu estava com dez mil, consegui ficar “apenas” com quatro mil que ainda preciso passar tudo para o HD. Estou focada em fazer essas coisas que a gente sabe que tem que fazer mas nunca faz, sabe?!

Entre um cochilo e outro a tarde vou organizando tudo. Também aproveitei uns dias para não fazer nada, para ficar sentada no sofá vendo série e comendo brigadeiro.

Arrumando as malas – Fim de uma viagem, começo de outra

É hora de fazer as malas para o hospital e eu quase que resisto em começar. Mesmo com azia, insônia, dor nas costas e todos os outros sintomas que estou tendo… estou gostando tanto estar grávida. Te sentir mexer, tentar filmar para compartilhar com a família, mil fotos da barriga. Será que vou lembrar como era ter você na minha barriga? Espero que sim. Pelo menos terei sempre esse texto para lembrar que apesar de todos os desconfortos foi delicioso te carregar por tanto tempo dentro de mim. Tenho certeza que vamos nos divertir muito quando você estiver aqui fora, mas como tudo na vida tem um final, todo final tem um recomeço.

Pode vir Maia, estou pronta para a nossa próxima viagem juntas.

Foto por: Camylla Ramos @fotografabrasileiraemmunique

Gostou deste post contando um pouco de como é estar grávida na Alemanha? Então nos siga no Instagram para não perder nenhuma novidade @qualquerlatitude e leia também:

A montanha mais alta da Alemanha

Os desafios de morar fora

Juliana é brasileira com descendência árabe e portuguesa. Casada com um alemão, vive em Munique. Esse misto de culturas a transformou na mulher que é hoje. Intensa, sensível, família, alegre, comunicativa, prática e determinada. Ama viajar e se emocionar com a energia de cada lugar e pessoa. Foi durante a sua viagem de intercâmbio que começou a escrever um diário e então percebeu que a escrita era uma ótima maneira de se expressar, de se curar e de registrar momentos. Instagram @julianatorresberg

7 Comentários

  • Faridi Torres

    Juliana vc foi muito verdadeira em seu texto . Posso afirmar porq te conheço bem ! Fiquei emocionada . Espero q o texto ajude muitas pessoas .

  • Maria LUCIA kalluf Batista

    O texto Grávida na Alemanha, expressa muito bem as emoções e sentimentos próprios do momento. Parabéns Juliana por nos permitir conhecer um pouco mais deste mundo mágico que é o tempo da gestação!

  • Lyana Kalluf

    Oinnnn lindeza! Adorei o texto. Você já é uma mamãe maravilhosa. Mande mais fotos pra mim! Estou louca pra ver a branquela ❤️. Juuuu na falta de vocabulário em alemão, grita rssss curta cada segundo, o parto e todas as delícias que virão. Eu fui mamãe na pandemia. Com várias noias e dificuldades. Sem receber nenhuma visita…. mas como em tudo, com vantagens. Pai e mãe sozinhos na maternidade.
    Ninguém dando palpite hehe . Foi bacana. Beijos cheios de saudade.

  • Danielle W

    Adoreii esse relato da viagem mais louca e maravilhosa que você vai fazer na sua vida!! A maia já tem muita sorte de ter você como mãe. Ansiosa para os próximos capitulos 😉

  • Monique

    Ju, lindo o texto e é claro que chorei com cada palavra. Estou muito feliz por estar vivenciando da mesma energia que você ainda mais em outro país a “gravidez” está sendo a melhor experiência que já tive.
    Deus abençoe a Maia e também a Lilian.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

%d blogueiros gostam disto: